O Hospital de Amor, referência internacional em oncologia, deu mais um importante passo no tratamento de câncer ocular com a inauguração do primeiro “Centro de Tratamento de Melanoma Uveal” do SUS, em Barretos (SP), passando a realizar o procedimento de braquiterapia ocular em larga escala. Com isso, devido à alta tecnologia, a instituição poderá tratar tumores de maior tamanho e com menos efeitos colaterais.
Hoje, no Brasil, especialmente no SUS, ainda há pouca disponibilidade de centros que ofereçam tratamento para esse tipo de câncer e nenhum em grande escala. Por isso, os pacientes raramente têm acesso a tratamentos que preservem o olho e a testes moleculares que ajudam a prever o risco de metástases e guiar o acompanhamento da doença. Com a criação de um Centro Nacional no Hospital de Amor, será possível oferecer diagnóstico e tratamento de forma mais rápida, organizada e moderna, melhorando o cuidado e aumentando a chances de cura, preservando o olho e a visão, quando possível.
Como marco do início do oferecimento desse novo tratamento, a instituição realizou a primeira cirurgia de braquiterapia ocular, utilizando técnicas avançadas que permitem erradicar a doença e preservar o globo ocular. Diferente da radioterapia convencional, que emite radiação de uma fonte externa, a braquiterapia ocular é uma modalidade de radioterapia na qual uma placa radioativa é cirurgicamente posicionada no globo ocular, permitindo que a radiação seja direcionada precisamente ao tumor, preservando ao máximo os tecidos saudáveis e minimizando danos à visão do paciente.
O Hospital de Amor dispõe das placas de braquiterapia e do sistema de planejamento mais modernos disponíveis, o que permite oferecer tratamentos extremamente personalizados e eficientes, aumentando as chances de cura e reduzindo os efeitos adversos da radioterapia. “O paciente não vai mais precisar ser submetido a um tratamento mutilador. A braquiterapia oferece a mesma chance de cura que a enucleação, mas sem a necessidade futura de próteses oculares, preservando a estética e, em muitos casos, a visão”, explica o oftalmologista do HA, Dr. Tomás de Oliveira Castro Teixeira Pinto.
“Outros serviços já ofereceram a braquiterapia ocular no Sistema Único de Saúde (SUS), mas não com essa tecnologia de ponta, nem com essa possibilidade de oferecimento em grande escala. Para o SUS, a principal importância é o acesso: serviços que oferecem braquiterapia são poucos e insuficientes, geralmente só conseguindo tratar tumores pequenos devido à tecnologia disponível. Na rede privada o tratamento é muito caro, fora da realidade da maioria dos pacientes”, destaca o médico oftalmologista do HA, em Barretos (SP), Dr. Roque Lima de Souza.
Melanoma uveal no Brasil
O melanoma uveal é um tipo de câncer que afeta os olhos e é o mais comum entre os adultos. Embora seja raro (cerca de 5 a 7 casos por milhão de habitantes), é grave, especialmente quando diagnosticado em fases avançadas.
Até 50% dos pacientes com melanoma uveal desenvolvem metástases, ou seja, o câncer se espalha para outras partes do corpo, principalmente para o fígado, em até cinco anos, devido à dificuldade do diagnóstico precoce. Nessa fase, a doença se torna extremamente letal. A análise molecular do tumor permite prever quais pacientes têm maior risco de desenvolver metástases, permitindo um acompanhamento mais próximo e individualizado.
No Brasil, especialmente no SUS, os pacientes não costumam ter acesso a esses recursos necessários para avaliar adequadamente o prognóstico da doença, dificultando o seguimento e tratamento adequados. Devido a essa carência, pesquisadores e médicos do Hospital de Amor criaram este projeto, com o objetivo de detectar e tratar com maior eficiência o melanoma uveal.
“Centro de Tratamento de Melanoma Uveal”
O “Centro de Tratamento de Melanoma Uveal” foi criado através de um projeto de pesquisa do Programa Nacional de Genômica e Saúde Pública de Precisão – Genomas Brasil, financiado pelo Ministério da Saúde e executado pelo DECIT/SECTICS/MS, que tem como objetivo, além de tratar o câncer, realizar análise molecular e classificação prognóstica avançada utilizando inteligência artificial.
Devido à complexidade do tratamento, a braquiterapia ocular é oferecida em poucos hospitais, (particulares e do SUS), ocasionando, frequentemente, que o paciente seja submetido a enucleação (remoção total do olho), mesmo quando o tumor poderia ser tratado de forma menos invasiva.
“Esse projeto é importante porque o melanoma uveal é um câncer raro, mas muito agressivo, que atinge o olho e pode se espalhar para outros órgãos (principalmente o fígado). Em muitos casos, quando a doença avança, as chances de cura diminuem. Estamos trazendo o que existe de mais moderno no mundo para o paciente do SUS, garantindo que a perda de um olho não seja a única opção por falta de acesso”, destaca a pesquisadora do HA e uma das autoras do projeto, Dra. Lidia Maria Rebolho Batista Arantes.
A primeira cirurgia de braquiterapia ocular do HA foi realizada em Renildo Santos da Conceição, capixaba, 54 anos, operador de máquinas, que acreditava que a o seu único tratamento seria a remoção do olho. “Vivi um momento histórico, fui o primeiro paciente a passar por este novo tratamento aqui no hospital. O meu tumor já é bem avançado, mesmo não conseguindo preservar a visão, o importante é ficar curado e os médicos me deram uma expectativa de mais de 90% de cura”, destaca Renildo.
Com o “Centro de Tratamento de Melanoma Uveal”, o HA espera transformar essa realidade do acesso ao tratamento de melanoma uveal através de quatro pilares:
• Braquiterapia de alta tecnologia: radiação aplicada seletivamente no tumor, preservando tecidos saudáveis.
• Análise genética e molecular: pela primeira vez no Brasil, o tumor será sequenciado para identificar o grau de agressividade, algo que antes só era realizado em centros de excelência na Europa e EUA.
• Inteligência artificial: modelos preditivos para antecipar o comportamento da doença e o risco de metástase (que atinge 50% dos casos). A pesquisa utiliza algoritmos de IA para analisar o DNA e o comportamento das células dos pacientes. Através de técnicas chamadas de clustering (agrupamento inteligente), o computador consegue identificar padrões invisíveis ao olho humano, separando os pacientes em perfis moleculares específicos.
• Biópsias minimamente invasivas: protocolos que permitem o estudo da genética da população brasileira sem comprometer a estrutura ocular.